sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Diário-Crônica



Crônica diária
Quando o dia virou noite, em plenas oito da manhã, ninguém pensou que poderia ser o fim do mundo. A gente olhou pra fora, pela janela, viu aquelas nuvens escuras e prontas e pensou logo que seria a chuva. A Cecília depois me contou que ela tinha certeza de que algo estranho estava acontecendo naquele momento, pois não é à toa que as coisas viram ao contrário, assim de repente.
Achei que ela tinha razão, como normalmente ela tem, mas não dei bola praquele céu todo cinza.
Quando cheguei em casa, depois de conversar com ela e almoçar um miojo que estranhamente me pareceu uma delícia, percebi que, de fato, as coisas não deviam estar certas nesse mundo. Me bateu um sono imenso e era uma da tarde; era como se aquele almoço tão singelo tivesse sido um banquete e eu precisava me revigorar com umas horas de descanso.
Mas eu tinha um milhão de coisas pra fazer, o computador me chamava, com e-mails importantes pra responder e a minha dissertação latejando ali, na tela, me lembrava das minhas obrigações de civilizada.
Olhei pra fora, o céu ainda escuro, aquela noite de tarde me pareceu tão convidativa que, olhando pra tela do meu note, vendo a penca de coisas ali me chamando pra mergulhar no trabalho, me dei conta de que não havia dúvidas sobre o que fazer. Deitei na minha cama desarrumada e dormi, dormi até que, quando acordei, já era dia de novo. A Cecília nem estranhou meu sono repentino e vespertino, afinal, era noite, mesmo sendo tarde, e ela achou muito natural que eu dormisse. Como ela faz toda noite, ficou acordada, me velando, olhando pras coisas da casa que tomam vida quando fecho os olhos, mas que pra ela são muito naturais.
E dormi, dormi até demais, já era dia, cinco da tarde, e senti uma culpa incrível por ter deixado tudo ali, me esperando.
Então liguei de novo meu computador e, para minha surpresa, o mundo continuou enquanto eu dormia, e mais coisas apareceram pra eu fazer.
Me sentei à escrivaninha, como se minhas horas de desligamento nunca tivessem acontecido, e continuei minha vida, fingindo que não tinha dormido, que tudo não passara de um desejo que não realizei, como tantos, encarando minhas coisas com um olhar de quem está devendo dinheiro, mas que sabe que nunca poderá pagar.

2 comentários:

Douglas C. S. Oliveira disse...

Porque o tempo não pára, dias sim, dias não?

O tempo não pára, não, não pára.

Elektra disse...

putz, tempo gasto é dívida que não tem lastro. E eu tô sem crédito na praça também!